Saiba tudo sobre a saída dos EUA do Acordo de Paris

Trump tira EUA do Acordo do Clima, por ser “um mau negócio”

Presidente diz que quer voltar a negociar um pacto climático, “mais justo” para os contribuintes norte-americanos. O resto do mundo critica a acção unilateral e reafirma o compromisso com as metas de Paris.

A Casa Branca tentou até à última hora manter o suspense sobre o teor da declaração do Presidente dos Estados Unidos sobre o Acordo do Clima de Paris. Mas quando Donald Trump finalmente falou, confirmou o que o mundo inteiro já sabia desde a véspera: que os EUA vão mesmo abandonar o pacto para combater o aquecimento global, através da redução das emissões de gases com efeito de estufa, que foi subscrito por 195 países do mundo e entrou em vigor a 4 de Novembro de 2016. “Era um mau negócio para os trabalhadores americanos e muito injusto para os Estados Unidos”, justificou.

“A partir de hoje os EUA vão cessar a aplicação de todos os termos do Acordo do Clima de Paris”, informou Trump, acrescentando que a sua ideia é iniciar imediatamente negociações para “reentrar no Acordo de Paris ou numa outra transacção inteiramente nova”.
Ou seja: “vamos sair, mas vamos começar logo a negociar para fazer um negócio que seja justo para os EUA. Se conseguirmos, ótimo. Se não conseguirmos, também está tudo bem”, considerou o Presidente, sem dizer nem onde, nem como, nem com quem se propõe negociar.

França, Itália e Alemanha emitiram um comunicado conjunto, respondendo que o acordo não pode ser renegociado. “Consideramos que o impulso gerado em Dezembro de 2015 em Paris é irreversível e acreditamos firmemente que o Acordo de Paris não pode ser renegociado, pois é um instrumento vital para o nosso planeta, sociedades e economias”, dizem os líderes destes três países europeus.

Responsáveis por 15% das emissões globais, os EUA são o segundo maior contribuinte mundial para o fenômeno do aquecimento global (depois da China), uma realidade científica que o Presidente recusa aceitar – tal como o responsável pela Agência de Protecção do Ambiente, Scott Pruitt, e um número significativo de legisladores e financiadores do Partido Republicano, que assistiram felizes ao anúncio no jardim da Casa Branca.

Um mito

Donald Trump refere-se às alterações climáticas como um “mito”, e acusa a China de ter inventado esse “logo” para prejudicar os interesses econômicos dos EUA. Esta quinta-feira, naquele que para os comentadores foi o seu discurso mais nacionalista e anti-globalista de sempre, sugeriu que o Acordo de Paris também foi concebido com o mesmo intuito, “pelos ativistas globais que procuram acumular riqueza à nossa custa”.

“Este foi um compromisso para uma redistribuição maciça da riqueza dos EUA para outros países”, denunciou. Ao retirar-se do acordo, os EUA “estão a proteger-se de futuras intrusões e a reassumir a sua soberania”. “Nós já somos o país mais amigo do ambiente. E agora ainda vamos ter o ar mais limpo, e a água mais limpa”, afirmou.

“Paso a passo estou a cumprir as minhas promessas eleitorais. E acreditem que ainda estou só a começar”, sublinhou o Presidente. Frisou que foi eleito para defender os cidadãos de Pittsburgh e não os de Paris. Mas o prefeito de Pittsburgh, cidade que votou por Hillary Clinton, anunciou logo a seguir que vai cumprir o Acordo de Paris.

As consequências da decisão de Trump, que prova a sua determinação em demolir as políticas que constituem o legado do seu antecessor Barack Obama, em nome da sua agenda de “América primeiro”, são relativamente imprevisíveis. Mas os comentadores concordam que é no palco político-diplomático que os prejuízos se vão sentir de forma mais aguda: ao afastar-se do consenso internacional, os EUA perdem a posição de liderança e autoridade moral e vêem o eixo de poder e influência global mover-se para mais longe.

 “Precisamos do Acordo de Paris para preservar a nossa criação”, diz Merkel

Uma nova frente Europa-China está se formando – os tradicionais aliados europeus, comprometidos com a transição para a energia limpa, estão preparados para voltar as costas ao parceiro transatlântico e começar a olhar na direção do Oriente, onde Pequim faz tenção de reforçar os seus esforços no combate às alterações climáticas. Conforme assinalou o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, referindo-se à possível renúncia do pacto de Paris pelos EUA, “sempre que um país decide abrir um vazio, é garantido que um outro país o vai ocupar”.

Ao ceder o palco principal a outros atores, o Presidente dos EUA pode estar  comprometendo o sucesso de outras iniciativas internacionais que nada têm a ver com o clima, dizem os analistas. Como notava o The Washington Post, há uma série de promessas/objetivos da Administração Trump, que passam pela revisão dos acordos de comércio livre às coligações que combatem o terrorismo, que dependem da cooperação de outros países. “Depois desta decisão, o resto do mundo deixará de confiar que os EUA respeitam a palavra dada em tratados internacionais”, resumia o diário.

Empresas preocupadas

Do ponto de vista econômico, e apesar dos argumentos do Presidente, o impacto também se figura negativo: as ações das companhias americanas de energia começaram a cair. Fazendo eco das posições do conselheiro econômico da Casa Branca, Gary Cohn, e do secretário de Estado, Rex Tillerson, que antes de entrar para o Governo foi o CEO da Exxon-Mobil, a maior petrolífera norte-americana, os executivos das principais empresas do setor energético, do carvão ao gás natural às renováveis, bem como os dirigentes de conglomerados como a General Electric, Wal-Mart e Microsoft, alertaram para o risco de se verem afastados da mesa onde decorrem as negociações e se tomam as decisões globais com impacto na sua atividade. Temem que os seus interesses no estrangeiro saiam prejudicados por possíveis ações de retaliação.

Além disso, dizem, a competitividade das suas empresas irá ressentir-se por limitações à entrada em novos mercados. Elon Musk, o fundador da construtora de automóveis eléctricos Tesla, abandonou o painél de conselheiros econômicos da Casa Branca. “Não me resta outra hipótese. As alterações climáticas são uma realidade. Esta decisão é má para a América e para o mundo”, disse. “É um erro colossal”, resumiu a líder da Hewlett-Packard, Meg Whitman.

Os Estados Unidos tornaram-se o primeiro subscritor do acordo de Paris a renunciar ao compromisso. Juntam-se assim à Síria e à Nicarágua, as únicas nações à margem do pacto: a primeira por viver uma guerra civil há mais de seis anos, e a segunda por entender que as metas de Paris não foram suficientemente ambiciosas. No entanto, os governadores de pelo menos três estados – Califórnia, Washington e Nova Iorque – já fizeram saber que vão continuar respeitando as metas de redução de emissões definidas pela anterior administração, em relação á  assinatura do acordo de Paris, e que poderão participar em nome próprio nas futuras negociações internacionais.

Trump diz que saída melhorará economia, mas empresas discordam

Apesar de Trump ter referido que os custos do acordo climático são prejudiciais para a economia norte-americana e que a saída do compromisso ajudaria a travar uma crise econômica e  proteger os postos de trabalhos, muitas empresas discordaram. As críticas chegaram de empresas multinacionais como o Facebook, a Apple, a Ford ou a Microsoft. Várias empresas petrolíferas norte-americanas, como a Exxon Mobil e a ConocoPhillips tinham publicamente defendido a permanência do país no Acordo de Paris.

Já anteriormente, o fundador da Tesla e da Space-X, Elon Musk e ainda o CEO da Disney, Robert Iger, tinham anunciado que renunciariam aos seus lugares em conselhos consultivos da Casa Branca se Trump decidisse sair do acordo.

Com a palavra, Obama!

Numa nota breve, o ex-Presidente Barack Obama lamentou que a atual Administração tenha escolhido ficar ao lado dos países que “rejeitam o futuro”, em vez de permanecer com as nações que assinaram o acordo e “vão recolher os seus frutos, em termos da criação de indústrias e postos de trabalho”. Mas manifestou a sua confiança de que “os estados, cidades e empresas saberão responder ao desafio e assumir a liderança para proteger o único planeta que temos para as gerações futuras”.

Em 2015, Obama comprometeu os EUA com uma redução de 26% a 28% do seu nível de emissões de gases com efeito de estufa, num prazo de dez anos. Washington também disponibilizou um pacote financeiro de três mil milhões de dólares para apoiar os países pobres a reagir aos efeitos do aquecimento global (secas, subida do nível do mar) e  de desenvolver energias limpas. “Fundo Verde para o Clima, o nome era bom”, ironizou Trump.

Macron adapta slogan de Trump: “tornar o nosso planeta grande outra vez”

Presidente francês rejeitou a possibilidade de renegociação do Acordo de Paris, porque “não há plano B” para as alterações climáticas.

Foram muitas as reações à decisão de Donald Trump em retirar os EUA do Acordo de Paris, anunciada esta quinta-feira. O Presidente francês, Emmanuel Macron, não deixou passar a oportunidade para também ele responder ao seu homólogo norte-americano. Como? Adaptando o slogan de campanha de Trump à defesa do Acordo de Paris para “tornar o nosso planeta grande outra vez”.

Depois de ter feito declarações sobre a saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris, Macron publicou no Twitter uma imagem onde se lê apenas “tornar o nosso planeta grande outra vez”, a forma original que o chefe de Governo francês arranjou para responder a Trump, recuperando o slogan do republicano “tornar a América grande outra vez”.

Publicação do presidente Francês no Twitter.

“A França acredita em vocês [EUA], o mundo acredita em vocês, mas não se enganem quanto ao clima: não há um plano B porque não existe nenhum plano B”, afirmou. Emmanuel Macron rejeita a possibilidade de renegociação do Acordo – como foi sugerido por Trump –, uma posição que já tinha sido tornado pública através de um comunicado conjunto de França, Itália e Alemanha.

O Presidente francês disse ainda que Trump “cometeu um erro” que afeta os interesses do Estados Unidos, assim como a sua população. “É um erro para o futuro do nosso planeta”, declarou.“Peço que se mantenham confiantes, nós vamos conseguir porque estamos completamente comprometidos”, disse Macron. “Todos compartilhamos a mesma responsabilidade: tornar o nosso planeta grande outra vez”, concluiu.

Confira o vídeo com a entrevista de Macron:

Foi um erro”, disse o outro Donald, o da UE

A decisão de Donald Trump “foi um erro”, disse o presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, tendo ao seu lado o primeiro-ministro chinês, Li Keqiang, que está em Bruxelas para assinar uma declaração conjunta de apoio ao Acordo de Paris. China e UE vão também conversar nesta cimeira sobre cooperação noutras áreas, com especial enfoque no comércio.

Don’t worry, be happy”, diz Putin

Depois de afirmar que ainda havia tempo para chegar a um consenso em relação ao Acordo de Paris, apesar da saída dos Estados Unidos o presidente russo Vladimir Putin disse ainda, em inglês, “Don’t worry, be happy” (não se preocupem, sejam felizes, em tradução livre). Estas declarações foram feitas esta sexta-feira no Fórum Econômico Mundial, em São Petersburgo.

 

 

Índia continua empenhada em cumprir o Acordo de Paris

O primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, afirmou que o país (um dos maiores poluidores a nível mundial) continua empenhado em cumprir o acordo climático de 2015, apesar da recente saída dos Estados Unidos. Estas declarações foram feitas esta sexta-feira no Fórum Econômico Mundial em São Petersburgo. Anteriormente, também o ministro do Ambiente da Índia, Harsh Vardhan, tinha referido que seriam feitos os possíveis para diminuir os gases com efeito de estufa e garantir a sustentabilidade ambiental.

Pequim prepara-se para assumir liderança no clima após desistência de Trump

 

Foto: Presidente Chinês.

 

Com os EUA fora do compromisso internacional para reduzir as emissões de gases com efeito de estufa, a China e outros grandes países não estão a dar sinais de recuar no seu compromisso.

Quando George W. Bush anunciou que os Estados Unidos não ratificariam o Tratado de Quioto para limitar as alterações climáticas, em 2001, outros países, como o Canadá ou a Austrália, liderados por políticos conservadores, aproveitaram para dizer que também não iriam aplicar o compromisso de limitar as emissões de CO2 para tentar limitar as alterações climáticas. Mas agora que Donald Trump segue a mesma política isolacionista, pode estar reforçando a cooperação do bloco europeu com a China.

“A China vai assumir as suas responsabilidades nas alterações climáticas”, garantiu o primeiro-ministro Li Keqiang, num encontro em Berlim com Angela Merkel, antes de voar para Bruxelas, para participar numa cimeira UE-China em que se espera que seja assinada uma declaração que reafirme o compromisso destas duas partes com o Acordo de Paris.

“É verdade que “o clima do mundo está nas mãos de apenas três nações”?
“Tenho muita confiança nos chineses. São negociadores duros, mas são muito consistentes”, disse Miguel Arias Cañete, comissário europeu do Ambiente, citado pela Reuters. “Se não temos conosco o país que emite 28% do CO2 a nível mundial, não é possível ser eficaz”, reconhece. Para tentar compensar, os outros dois maiores intervenientes na “arena climática”, como diz, “declaram o seu compromisso com o Acordo de Paris”.

A China precisa dos conhecimentos tecnológicos europeus para combater a poluição que aflige de forma apocalíptica as suas cidades – deixando-as cobertas durante dias por nuvens escuras irrespiráveis, sobretudo no Inverno. E a UE precisa que Pequim acentue as ações para controlar as emissões de CO. A China consume tanto carvão como todo o resto do mundo, nas suas siderurgias e cimenteiras.

Já este ano, a China apresentou um plano, a executar até 2020, em que prevê gastar até 360 mil milhões de dólares (cerca de 320 mil milhões de euros) em energias renováveis e criar 13 milhões de empregos neste setor. Outro plano prevê um crescimento limitado do uso do carvão: em 2020, chegaria a 4100 toneladas, ou seja, um aumento de 3,5% em relação aos valores de 2015.

Pequim quer cortar no uso de carvão devido aos pesados custos para a saúde humana e nas emissões de CO2, que fazem aumentar a temperatura do planeta. “Ao rejeitar a regulamentação, Trump cria um vazio na liderança climática que a China pode preencher”, comentou ao Washington Post Alex Wang, especialista em Ambiente na China na Universidade da Califórnia em Los Angeles.

Guterres deixa recado a Trump: Acordo de Paris “é absolutamente essencial”

Discurso surge depois da Cimeira do G7, em que o Presidente dos EUA pediu mais tempo para tomar uma posição sobre o histórico consenso negociado em 2015.

O secretário-geral das Nações Unidas considera que as alterações climáticas são “inegáveis” e defende que é “absolutamente essencial” que o mundo combata este problema em conjunto. As declarações de António Guterres surgem numa altura em que o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, equaciona a possibilidade de alterar a sua posição em relação ao Acordo de Paris.

António Guterres, citado pela Reuters, falava durante um evento na Universidade de Nova Iorque, depois de Donald Trump, no sábado, ter dito durante a cimeira do G7 que precisava de mais tempo para tomar uma decisão em relação ao Acordo de Paris, adiando para esta semana a tomada pública de uma posição.

“Se algum Governo duvida da vontade e da necessidade global deste acordo, essa é uma razão para todos os outros países se unirem ainda mais”, afirmou Guterres, mas sem nunca se referir diretamente à posição da Administração Trump, ainda que tenha referido que acredita que “será importante para os Estados Unidos não abandonarem o Acordo de Paris”. Guterres antecipou também a possibilidade de Trump rejeitar o acordo e defendeu que a sociedade norte-americana, como um todo – o que inclui cidades, estados e empresas –, deve continuar comprometida com o que prevê o protocolo.

“A mensagem é simples: o comboio da sustentabilidade já saiu da estação. Apanhem-no ou fiquem para trás”, disse Guterres, insistindo que, “é absolutamente essencial que o mundo implemente o Acordo de Paris”. Este foi o primeiro discurso do secretário-geral da ONU dedicado às alterações climáticas.

Donald Trump, logo após ser eleito, decidiu recuar em muitas das medidas tomadas por Barack Obama em relação às alterações climáticas – considerando mesmo que são um “engano”. Os Estados Unidos são um dos 147 países e entidades que assinaram o histórico acordo de 2015, mas na cimeira do fim de semana Trump preferiu adiar uma tomada de posição sobre o documento que quer limitar o aquecimento global a menos de dois graus Celsius, o que implica reduzir as emissões de gases com efeito de estufa.

Os Estados Unidos são a maior economia do mundo e, depois da China, a segunda que mais emite este tipo de gases. António Guterres quer organizar para 2019 uma nova cimeira dedicada às alterações climáticas para rever a implementação do acordo global sobre este tema.

Grande parte das reações internacionais foram negativas

O site especializado CarbonBrief, especializado em alterações climáticas e políticas energéticas, elaborou um gráfico em que reúne várias reações internacionais (de políticos, jornalistas, cientistas ou empresas) à decisão tomada por Trump de sair do Acordo de Paris — a maior parte das reações é negativa.

Schwarzenegger comenta o ocorrido

Ator e ex-governador do estado da Califórnia Arnold Schwarzenegger divulgou em suas redes sociais, nesta sexta-feira (2), um vídeo em que critica a decisão do presidente americano, Donald Trump, de retirar os Estados Unidos do Acordo de Paris sobre mudanças climáticas. Veja abaixo:

 

 

No vídeo, Schwarzenegger cita que cerca de 200 mil pessoas morrem todos os anos nos Estados Unidos por causa de problemas de saúde relacionados à poluição.

“Minha mensagem para você, Senhor Presidente, é que, como um servidor público e especialmente como um presidente, sua primeira e mais importante responsabilidade é proteger as pessoas”, afirmou. “Não podemos ficar sem fazer nada enquanto pessoas estão adoecendo e morrendo, especialmente quando você sabe que há uma outra maneira.”

O ator e empresário tem se dedicado à defesa do meio ambiente e inclusive participou da Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas de Paris em 2015.

Ele afirmou, ainda, que governos estaduais e locais deverão continuar na luta contra as mudanças climáticas e “preencher o vazio” que Trump está criando e citou que 70% das emissões de gases nocivos podem ser controladas pelos governos locais.

Quando foi governador da Califórnia, entre 2003 e 2011, o estado aprovou leis ambientais mais rígidas.

 

Outras declarações e repercussões sobre a saída dos EUA do Acordo

Itamaraty e Ministério do Meio Ambiente do Brasil: “Preocupa-nos o impacto negativo de tal decisão no diálogo e cooperação multilaterais para o enfrentamento de desafios globais”, disse a nota dos dois órgãos.

O governo disse, ainda, que segue comprometido com o esforço global de combate à mudança do clima e com a implementação do Acordo de Paris. “O combate à mudança do clima é processo irreversível, inadiável e compatível com o crescimento econômico.”

Theresa May, premiê britânica, expressou seu “desapontamento” com a decisão em um telefonema com Trump, segundo um comunicado de Downing Street. Na conversa, May disse que o Reino Unido “continua comprometido com o acordo de Paris”, que é a estrutura certa “para proteger a prosperidade e a segurança de futuras gerações”.

Hillary Clinton, ex-candidata presidencial nas eleições de 2016: “Um erro histórico. O mundo está se movendo progressivamente em uma mudança climática. A retirada de Paris deixa os trabalhadores e as famílias americanas para trás.”

Bernie Sanders, senador e ex-candidato presidencial nas eleições de 2016: “Decisão de Trump de retirar os Estados Unidos do Acordo Climático de Paris é uma abdicação da liderança americana e uma desgraça internacional.”

Paul Ryan, líder republicano na Câmara dos Representantes dos EUA: “Parabenizo o presidente Trump por cumprir seu compromisso com o povo americano e nos retirar deste acordo ruim. Esse acordo teria elevado o custo da energia e atingido com mais firmeza os cidadãos de médios e baixos investimentos.”

Mitch McConnell, líder republicano no Senado: “Trump reiterou seu compromisso para proteger as famílias de classe média do país e os trabalhadores do setor de carvão de maiores preços da energia e do desemprego.”

Andrew Cuomo, governador de Nova York: “Nova York está empenhada em cumprir os padrões estabelecidos no Acordo de Paris, independentemente das ações irresponsáveis ​​de Washington.”

Bill de Blasio, prefeito de Nova York: “O Acordo de Paris foi o maior passo progressivo para a mudança climática que nós tomamos em anos. É inconcebível para Trump abandonar isso.”

Bill Peduto, prefeito de Pittsburgh: “Como prefeito de Pittsburgh, posso garantir que seguiremos as diretrizes do Acordo de Paris para nosso povo, nossa economia e futuro.”

Al Gore, ex-vice-presidente dos Estados Unidos: “Retirar os Estados Unidos do Acordo de Paris é uma imprudente e indefensiva ação.”

Greenpeace: “Ao se retirar do Acordo de Paris, Trump transforma EUA de líder do clima a um incessável matador do clima.”

Leonardo DiCaprio, ator: “Hoje, nosso planeta sofreu. É mais importante do que nunca agir.” #ParisAgreement

Jeffrey D. Sachs, diretor do Centro para Desenvolvimento Sustentável de Columbia: “América por último. Um momento miserável e histórico. Ouvir Trump é estar ouvindo um fluxo interminável de mentiras e besteiras.”

Elon Musk, empreendedor da Tesla e SpaceX: “Mudanças climáticas são reais. Deixar o Acordo de Paris não é bom para a América ou para o mundo.”

Scott Kelly, astronauta americano: “Saída do #ParisAgreement [Acoro de Paris] será devastadora para o nosso planeta. Paris e Pittsburgh compartilham o mesmo ambiente depois de tudo.”

Retirada dos EUA de Paris pode aumentar 0,3 graus na temperatura global

Foto de 2015 mostra indústria de energia de combustível fóssil nos Estados Unidos (Foto: AP Photo/Jim Cole, File)

A retirada dos EUA do acordo climático de Paris poderá significar, no pior dos cenários, um aumento de 0,3 graus Celsius das temperaturas globais até o final do século, segundo uma estimativa avançada esta sexta-feira pela Organização Meteorológica Mundial (WMO, na sigla em inglês), das Nações Unidas. Porém, a “aliança climática” que parece estar unir alguns estados norte-americanos determinados em cumprir os objetivos do Acordo de Paris pode contrariar as previsões mais pessimistas.

Os cenários dos especialistas sobre o impacto das alterações climáticas são difíceis de conceber e já eram bastante desanimadores antes da decisão anunciada esta quinta-feira pelo Presidente Donald Trump quer que o país saia do Acordo de Paris. Esta sexta-feira, Deon Terblanche, diretor do Departamento de Investigação e Meio Ambiente Atmosférico da WMO, avançou à agência Reuters que o abandono dos EUA pode significar um aumento de temperatura de 0,3 graus Celsius até ao final deste século. No entanto, o especialista frisa que não foi ainda executado nenhum modelo climático para avaliar o provável impacto da decisão de Donald Trump.

Enquanto os especialistas fazem contas ao prejuízo que o Presidente norte-americano poderá causar, há já alguns estados dos EUA que garantem que querem cumprir os limites impostos pelo Acordo de Paris, à revelia da decisão de Trump. Para já, a “aliança climática dos Estados Unidos” que pode minimizar os danos une os estados da Califórnia, Nova Iorque e Washington e está aberta a todos os interessados. Estes três estados representam cerca de um quinto da população e do produto interno bruto (PIB) total dos EUA, e produziram 11% das emissões poluentes totais norte-americanas em 2014, segundo dados da Agência de Informação Energética dos EUA, citados pelo site Politico.
As estimativas de vários especialistas apontam para uma emissão para atmosfera de 3000 milhões de toneladas de dióxido de carbono (CO2) por ano em todo o mundo, segundo dados de 2014. A soma das emissões de CO2 de todos os países da União Europeia é 9% do total mundial, enquanto os EUA são responsáveis por 15% e a China por 30%.

Que o mundo vai aquecer até 2100 é certo. Resta saber quanto. O Acordo de Paris une quase 200 países no compromisso de tentar evitar que esse aumento de temperatura ultrapasse os dois graus Celsius. Os cientistas que estudam os efeitos das alterações climáticas sabem que mais do que isso terá efeitos desastrosos para o nosso planeta.

Cinco efeitos globais da saída dos EUA do Acordo de Paris

1. O acordo fica mais fraco

Não há dúvidas de que a ausência dos EUA dificulta o cumprimento das metas estabelecidas pelas nações globais no Acordo de Paris – sobretudo impedir que a temperatura global suba mais de 2ºC.

Em 2016, registrou-se no mundo um nível recorde de emissões de dióxido de carbono, algo que especialistas chamaram de “uma nova era” de aquecimento global e “prova irrefutável” da responsabilidade humana sobre as mudanças climáticas.

O acordo parisiense prevê limites à emissão de gases do efeito estufa e que países ricos ajudem os mais pobres financeiramente a se adaptar às mudanças climáticas e na adoção de energias renováveis.

Os EUA contribuem com cerca de 15% das emissões globais de carbono, mas ao mesmo tempo é uma importante fonte de financiamento e tecnologia para países em desenvolvimento em seus esforços para combater o aquecimento global.

Outra questão é a da “liderança moral” da qual os EUA abdicarão ao deixar de lado o acordo climático – algo que pode ter consequências no âmbito diplomático.

O ambientalista Michael Brune, diretor-executivo do grupo Sierra Club, considerou o recuo americano “um erro histórico que será analisado por nossos netos com decepção e surpresa sobre como um líder global conseguiu estar tão distante da realidade e da moralidade”.

2. A China ganha protagonismo

China e Estados Unidos foram atores cruciais na consolidação do acordo climático. O ex-presidente Barack Obama e seu par chinês, Xi Jinping, entraram em consenso quanto à criação de uma “ambiciosa coalizão” com pequenos países insulares e a União Europeia.

A China apressou-se em reafirmar seu compromisso com o acordo parisiense, e espera-se um comunicado conjunto de Pequim e União Europeia nesta sexta-feira prometendo maior cooperação no corte de emissões de carbono.

“Ninguém deveria ficar para trás, mas a UE e a China decidiram andar para frente”, disse o comissário climático da União Europeia, Miguel Arias Cañete.

É possível também que, além de aumentar o protagonismo chinês, a decisão americana abre espaço para que Canadá e México ascendam como “players” significativos nas Américas no esforço de impedir o aumento das temperaturas globais.

3. Lideranças empresariais globais se sentirão contrariadas

Líderes corporativos americanos formaram uma das mais fortes vozes em favor da permanência dos EUA no Acordo de Paris.

Centenas de empresas como Google, Apple e até mesmo produtoras de combustíveis fósseis como Exxon Mobil haviam pedido a Trump que se mantivesse nas negociações climáticas.

Darren Woods, executivo-chefe da Exxon, escreveu uma carta pessoal a Trump dizendo que os EUA “estão bem posicionados” para competir globalmente dentro do acordo, com o qual os EUA teriam “um assento na mesa de negociações de forma a garantir a igualdade” das regras de mercado.

4. É improvável que o carvão volte a ter protagonismo

Uma das forças eleitorais de Trump no pleito de 2016 é região americana produtora de carvão – em Estados como Virgínia Ocidental, Ohio e Pensilvânia, que ele diz terem sido prejudicados pelo Acordo de Paris -, à qual o presidente prometeu incentivos e empregos durante a campanha.

Mas o ocaso do carvão, que também está sendo abandonado em diversos outros países, dificilmente será revertido.

Além disso, a quantidade de empregos gerados nos EUA pela indústria carvoeira equivale hoje à metade dos gerados pela indústria de energia solar.

Ainda que muitos países em desenvolvimento ainda dependam do carvão, essa fonte de energia é alvo de críticas por seu forte impacto na qualidade do ar.

E a queda dos preços da energia renovável também tem levado nações como a Índia a adotar fontes mais verdes de combustível.

5. Ainda assim, as emissões devem cair

Mesmo com a saída americana, as emissões de carbono devem continuar a cair nos EUA – isso por causa do crescimento do gás como fonte de energia em substituição ao carvão.

O uso do gás de xisto – que também é alvo de polêmicas ambientais – cresceu exponencialmente com o aumento da produção e a queda dos preços.

Estados norte-americanos contrariam Trump e formam aliança climática

Após o presidente estadunidense Donald Trump anunciar que os EUA vão sair do Acordo de Paris, acordo este que pretende controlar as alterações climáticas, assinado em Dezembro de 2015, os estados da Califórnia, Nova Iorque e Washington anunciaram uma “aliança climática” para continuar a respeitar os limites previstos no acordo.

A decisão foi anunciada num comunicado assinado pelo governador californiano, Edmund D. Brown, em que chama esta coligação de “Aliança Climática dos Estados Unidos” e  explica que os estados se comprometem a “concretizar ações agressivas em relação às alterações climáticas”, independentemente da decisão do Presidente.

Estes três estados representam cerca de um quinto da população e do PIB total dos EUA, e produziram 11% das emissões poluentes totais norte-americanas em 2014, segundo dados da Agência de Informação Energética americana, citados pelo político.

No comunicado é dito que qualquer estado que pretenda seguir o Acordo de Paris pode juntar-se a esta aliança.

Além disso, diz o Washington Post, 30 estados tinham já iniciado planos para aumentar o uso de energia renovável, algo que não deverá mudar com a decisão de Trump.

Um deles é Nova Iorque, que esta semana anunciou um plano de investimento de 1,5 mil milhões de dólares em energias renováveis e na eficiência energética, bem como de outros 150 milhões destinados à energia solar. Segundo o governador, Andrew M. Cuomo, estas medidas combinadas vão criar 40 mil postos de trabalho até 2020, contrariando um dos argumentos apresentados pelo Presidente na quinta-feira. A confirmar-se, este será o maior investimento em energias renováveis alguma vez realizado por um estado norte-americano.

 

Michael Bloomberg promete 15 milhões de dólares para as alterações climáticas

O milionário norte-americano e antigo prefeito de Nova Iorque Michael Bloomberg prometeu, nesta sexta-feira, angariar 15 milhões de dólares (13,4 milhões de euros) para apoiar os esforços das Nações Unidas na luta contra as alterações climáticas. O objetivo da doação é o de apoiar as operações do secretariado da Convenção-Quadro das Nações Unidas para as Alterações Climáticas, nomeadamente aquelas que se “destinam a ajudar os países a atingir os seus compromissos no quadro do Acordo de Paris de 2015”, anunciou o milionário, através de um comunicado da sua Fundação Bloomberg Philanthropies.

Bloomberg é enviado-especial da ONU para as cidades e as alterações climáticas.
“Os americanos não se vão retirar do acordo de Paris”, adiantou Michael Bloomberg. “Pelo contrário, vamos fazê-lo avançar”, concluiu. A Bloomberg Philanthropies vai associar-se a outros parceiros para conseguir os “cerca de 15 milhões em fundos para compensar o que o secretariado da ONU vai perder devido ao recuo de Washington”.

Além das críticas pela decisão política de Donald Trump, as várias instituições envolvidas expressaram receios quanto às consequências financeiras tanto para a Convenção-Quadro da ONU (23% do seu orçamento é suportado pelos Estados Unidos) como para a ajuda internacional aos países mais pobres, no âmbito do Fundo Verde.

“Os americanos vão honrar e respeitar o Acordo de Paris” e “não há nada que Washington possa fazer para nos travar”, disse Bloomberg no seu comunicado. O milionário de 75 anos é considerado pela revista Forbes a oitava pessoa mais rica do Mundo.

 

Referências:  Jornal Público, G1

Por: Filipe Heringer – Engenheiro de Energia da Sol Lar

        Miguel Barreto – CEO e Fundador da Sol Lar